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Real Estate Shapers: Promotores, investidores e especialistas alertam para bloqueios nos licenciamentos e falta de capacidade produtiva

Geopolítica, pressão sobre custos de construção e nova legislação aumentam exigência no setor imobiliário

28/05/2026
A habitação continua a atrair compradores em Portugal e o setor não prevê uma quebra da atividade, mas os principais agentes do mercado admitem dificuldades crescentes para responder à procura, num contexto marcado por falta de mão de obra, custos elevados e atrasos administrativos.
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O mercado imobiliário português deverá entrar numa nova fase de maior exigência, com pressão crescente sobre a construção e dificuldades estruturais na capacidade de resposta à procura, apesar de o setor afastar um cenário de quebra da atividade.

A conclusão foi defendida por promotores, investidores e especialistas durante a 3.ª edição da conferência Real Estate Shapers, que decorreu no Museu de Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM), em Lisboa.

Apesar da instabilidade geopolítica internacional, da pressão sobre os custos de construção e das alterações legislativas, os intervenientes defenderam que a procura continua sólida, sobretudo por parte de compradores nacionais. Ainda assim, o consenso aponta para um mercado mais seletivo, profissionalizado e operacionalmente mais desafiante.

“Terminou a fase do vale tudo”, afirmou Benedita César Machado, chief real estate sales, marketing & communications officer da Arrow Global, durante o painel dedicado ao próximo ciclo imobiliário. A responsável considerou que os clientes estão hoje mais informados e exigentes, deixando de aceitar “qualquer produto a qualquer preço”.

Também Patrícia Barão, presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP), considerou inevitável um abrandamento da evolução dos preços da habitação, depois dos fortes crescimentos registados nos últimos anos. A responsável recordou que 2025 terminou com números recorde no setor habitacional, com cerca de 175 mil casas vendidas e 41 mil milhões de euros investidos em habitação, maioritariamente por compradores portugueses.

Apesar da resiliência da procura, vários intervenientes alertaram para a incapacidade do setor em responder às necessidades atuais. A morosidade nos licenciamentos voltou a surgir como uma das principais preocupações dos promotores e investidores.

Joaquim Lico, CEO da Vogue Homes, criticou a falta de continuidade nas políticas públicas e apontou a ausência de respostas estruturais por parte da administração pública. “Enquanto não houver uma visão genérica sobre o setor e sobre o que afeta o setor, não vamos conseguir ter soluções”, afirmou.

Já Nuno Santos, director head of Portugal do Grupo Reis, antecipou uma fase “mais desafiante” para o imobiliário nacional e considerou improvável uma melhoria significativa dos licenciamentos a curto prazo. O responsável alertou ainda para a saída contínua de mão de obra qualificada da construção portuguesa.

A escassez de trabalhadores especializados acabou, aliás, por atravessar praticamente toda a conferência. José Araújo, director central – Desinvestimento Imobiliário do Millennium bcp, considerou que a falta de mão de obra representa atualmente um dos principais constrangimentos do setor e alertou para o impacto adicional que grandes obras públicas poderão gerar nos próximos anos, nomeadamente projetos como o novo aeroporto ou o TGV.

Perante este cenário, a industrialização e a construção modular surgiram repetidamente como parte da solução para aumentar a capacidade produtiva da construção nacional.

Miguel Garcia, general manager da Garcia Garcia, defendeu que a construção offsite, a industrialização e a robótica representam uma resposta direta à escassez de mão de obra, recursos naturais, tempo e capacidade produtiva. “A construção tem de se modernizar e evoluir”, afirmou, destacando também a redução do desperdício, o maior controlo de qualidade e a melhoria da eficiência operacional.

A transformação tecnológica e ambiental do setor marcou igualmente o primeiro painel da conferência.

Ana Lisboa, técnica especialista da direção de indústria e transição energética da Adene – Agência para a Energia, alertou para os desafios da transição energética e para o risco de perda de competitividade das PME portuguesas perante mercados menos exigentes do ponto de vista ambiental. A responsável defendeu maior articulação entre políticas públicas, inovação e indústria, numa altura em que muitas empresas continuam a enfrentar dificuldades na adaptação às novas metas europeias.

Também Bruno Borges, leader Portugal da LIXIL Europe, chamou a atenção para o impacto da nova diretiva europeia da água potável na fileira da construção, defendendo que os edifícios terão de incorporar novas preocupações relacionadas com eficiência e qualidade da água.

Já Artur Varum, CEO da Civilria, destacou o papel da arquitetura e dos projetos urbanos na transformação das cidades e na valorização do espaço urbano.

A sessão de encerramento contou com a intervenção de Manuel Maria Gonçalves, CEO da Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII), que reforçou o papel do setor privado na resposta às necessidades habitacionais do país e defendeu maior capacidade de construção e investimento para responder à procura existente.

A Real Estate Shapers é organizada pela Magazine Imobiliário.

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